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Tecnologia

 
 

Internet tem papel importante na vantagem de Obama

27 de maio de 2008 17h58 atualizado às 21h58

Mais do que qualquer outro fator, foi a compreensão, por Barack Obama, do papel central que a rede social da Internet vem interpretando que propeliu sua campanha pela indicação presidencial do Partido Democrata a uma vantagem aparentemente intransponível diante de Hillary Clinton.

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Isso não surpreende. Obama passou apenas 10 anos de sua vida adulta no mundo dividido da guerra fria, e o dobro disso no mundo pós-queda do Muro de Berlim, cada vez mais interconectado.

A CMA (conectividade mutuamente assegurada) substituiu a MAD (destruição mutuamente assegurada) da era da guerra fria. Para Hillary, nascida em 1947, a proporção é bastante diferente.

O paradigma mental sob o qual ela vive é o da divisão. Quando seu marido disputou a presidência pela segunda vez, em 1996, a Internet era um fenômeno incipiente.

O pensamento e as pessoas daquela campanha se provaram incapazes de antecipar o que viria a acontecer uma dúzia de anos mais tarde. Agora, parecem paralisados ao clarão virtual da campanha de Obama.

Esse fracasso cultural foi devastador para Hillary. Como aponta Joshua Green em importante artigo para a revista Atlantic, Obama usou as redes sociais da web e seu site muito bem planejado de Internet para desenvolver a máquina de dinheiro que alimenta sua campanha, e o ativismo dos jovens partidários, que o levou a avançar cada vez mais.

Green aponta que "o total de 1,276 milhão de doadores alegado por Obama é tão grande que Hillary nem mesmo tenta competir". Ele oferece mais alguns dados sobre a campanha de Obama: 750 mil voluntários ativos e oito mil grupos de afinidade. Em fevereiro, um mês no qual ele arrecadou US$ 55 milhões em verbas de campanha (US$ 45 milhões via Internet), 94% das doações recebidas por Obama tinham valor inferior a US$ 200, um número que apequena o de pequenas contribuições às campanhas de Hillary e do senador John McCain.

A campanha de Obama funciona como uma empresa iniciante de Internet no modelo clássico, um movimento que se espalha com intensidade viral, propelido por algumas das mentes mais criativas do Vale do Silício.

Como no caso de qualquer fenômeno online, ele atravessou fronteiras nacionais, e causou tanto agito em Berlim quanto em seu país. Ele não poderia tê-lo realizado sem um senso de história, uma conexão que a natureza do mundo pós-pós-11 de setembro - ou seja, o mundo que sucedeu ao mundo da guerra sem fim - será determinada pela sociabilidade e pela conectividade.

No mundo globalizado do MySpace, LinkedIn e coisas assim, a sociabilidade é uma força tão forte quanto a soberania. Eu procurei em vão por sinais de que a campanha de Hillary percebe a importância decisiva do momento histórico.

Sua ameaça de "obliterar totalmente" o Irã, sua referência repulsiva ao assassinato de Robert Kennedy, em 1968, como motivo para se manter na disputa, suas mentiras sobre incidentes que teria vivido na Bósnia - tudo isso reflete uma visão da história como algo que existe para fins políticos, e não como fonte de inspiração ou reflexão.

É como se a História não passasse de "eu, eu, eu". E isso tende a obscurecer a visão de um líder. E a cegueira mais paralisante que ela exibe se refere às redes, nacionais e mundiais, os elos que unem e mudaram a sociedade.

Como diz David Singh Grewal em seu novo livro, o excelente "Network Power", uma das tensões centrais do mundo é que "tudo está sendo globalizado, exceto a política".

Grewal prossegue: "Vivemos em um mundo no qual nossas relações de sociabilidade - nosso comércio, cultura, idéia, modos - são cada vez mais compartilhados, coordenados por conversações que vêm se globalizando cada vez mais nesses domínios, mas no qual a política se mantém inescapavelmente nacional, centrada em Estados-nações que servem apenas como foco a decisões soberanas".

O governo Bush acentuou a conscientização global, em um momento de dissociação como o atual. As pessoas conectadas de todo o mundo se sentem repugnadas diante das políticas de Bush - o ataque ao instituto do habeas corpus, por exemplo -, mas se sentem incapazes de influenciá-las.

O esmagador interesse mundial na atual eleição americana está em parte vinculado à crença cada vez mais presente de que o líder dos Estados Unidos pode ser tão importante para as vidas dos franceses, por exemplo, quanto o ocupante do palácio do Elysée.

O pessoal de Obama percebe isso. Conectividade quer dizer que agir sozinho é uma insensatez. Trata-se de uma das lições básicas do Iraque. Se Obama promete criar um posto de secretário da Tecnologia, para promover a abertura do governo via Internet, e fazer do diálogo, em lugar da guerra, uma peça central de sua política, é porque ele sabe como falar ao mundo do século XXI.

Grewal escreve que "a política é o único poder que pode servir para reformular a sociedade por meio da sociabilidade". As escolhas pessoais acumuladas que se expressam pelas redes dão forma à sociabilidade.

Na ausência de um governo mundial, apenas a soberania será capaz de canalizar essa vontade. Em termos concretos, não se pode tornar a globalização mais eqüitativa em termos de distribuição de renda sem a ajuda da política, mas antes de tudo é preciso entender a sociabilidade pelo que ela é: uma forma de soberania pessoal do século XXI que rivaliza com a soberania nacional.

Hillary jamais percebeu esse fato. McCain, cuja arrecadação de fundos na Internet também é mínima, também demonstra pouca compreensão da CMA. É claro que a conexão não é panacéia, ou garantia contra ameaças violentas.

A Al Qaeda usa bem a web. Mas sem compreender a conectividade, não se pode derrotar nem o terrorismo nem um adversário político. São as redes, estúpido, e as gerações que vivem com elas.

Tradução: Paulo Migliacci ME

Herald Tribune
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