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Na Rússia, os "melhores hackers do mundo" operam nas sombras

24 jul 2010
09h03
atualizado às 13h20
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Alexandre Rodrigues

Caso 1. Dois anos atrás, no mês de julho, um pesquisador americano observava o fluxo de dados na internet quando notou algo estranho na Geórgia. Um fluxo anormal de dados era dirigido aos sites governamentais com uma mensagem: win+love+in+Rusia. Semanas depois, quando a Rússia invadiu-o de fato, o território georgiano foi o primeiro na história ao sofrer ao mesmo tempo um ataque virtual simultâneo a um real. Mas não foi só. À medida que as semanas passavam, ficou claro que não era, como se suspeitava, um ataque do governo russo. Em vez disso, era um ataque de gangues.

Enquanto tanques russos avançavam, a Geórgia ficou sob ataque na internet em 2008
Enquanto tanques russos avançavam, a Geórgia ficou sob ataque na internet em 2008
Foto: AFP

Caso 2.
Era pouco mais de meia-noite de 8 de novembro de 2009 quando 130 caixas eletrônicos de 49 cidades, de Moscou a Washington, começaram a ser usados simultaneamente em ordens de pagamento ou compensação de vales-presente. Demorou 12 horas para o Royal Bank Of Scotland notar algo de errado. Os cartões, decodificados e funcionando como autênticos, já haviam sacado o equivalente a R$ 17 milhões. Constrangidas, nos meses seguintes autoridades americanas admitiriam que aquele era o ataque coordenado mais sofisticado que já tinham visto. Pelo menos conseguiram chegar aos reponsáveis. Apenas três homens, que sequer moravam no mesmo país - todos, porém, no Leste Europeu. E por trás de tudo, Viktor Pleshchuk, um russo de São Petersburgo.

Se o termo "hacker" sempre esteve ligado à ousadia de alguns - centenas, talvez - jovens americanos até os anos 90, as duas histórias mostram que algo mudou na década passada. Russos passaram ao topo do mundo dos hackers. São os mais perigosos do mundo na atualidade, segundo o Departmento K, como é conhecida a divisão de cibercrimes da polícia de Moscou. A razão não é simples, mas se explica por uma associação entre impunidade e a entrada da máfia no mundo dos hackers.

Mas por que os russos?

"Todo mundo sabe que os russos são bons em matemática", explicou Boris Miroshnikov, então chefe do Departamento K, sobre os hackers ao site ZDNet . "Antigamente costumavam ser só uns garotos travessos, mas cresceram e se deram conta de que são bons em algo e devem viver disso".

De fato, o jornal Pravda estima que 150 mil programadores russos trabalhem no exterior. Estudantes das Universidades de Moscou ou de São Petersburgo costumam ser disputados por gigantes da tecnologia. Mas ainda assim há uma oferta de programadores que não conseguem emprego e acabam atraídos para o submundo.

E, mais do que a aptidão para matemática e programação, o que conta na Rússia é a organização. Assim como na China, máfias transformaram a atividade hacker numa ação lucrativa. Montar um ataque é relativamente barato e organizações contam com a relativa impunidade em território russo se as vítimas estão no exterior.

A consequência é que, ao contrário da era da personalidade, quando hackers como Kevin Mitnick eram conhecidos do público, na Rússia eles são desconhecidos tanto do público quanto da polícia. Recrutados em redes sociais, ganham o equivalente a R$ 3,5 mil mensais.

"Tudo o que você precisa é um computador, acesso à internet e conhecimento de programação e agora você tem uma carreira diante de si", revelou um hacker, que usa o apelido A-Z, ao jornal americano USA Today . "É fácil fazer dinheiro porque a internet é anônima e você não pensa que vai ser pego".

Irmandade suspeita
Mas não é apenas isso também. Desde o desmantelamente da União Soviética, no início dos anos 90, em muitos setores da economia russa é difícil separar máfia e governo. A atividade hacker é mais uma. Nos ataques à Geórgia, em vez do governo russo, especialistas americanos identificaram a participação de gangues. A preparação e os alvos escolhidos, contudo, indicavam que os grupos agiam aparentemente coordenados com o governo.

Também tivera a mesma conclusão o ataque coordenado aos sites do governo da Estônia em abril de 2007. No "país mais conectado do mundo" - 90% das transações bancárias são online e cerca de 40% da população só se informa na internet - os serviços de água e energia foram interrompidos depois da decisão do governo de remover uma estátua do ex-ditador soviético Josef Stálin. Como na Geórgia, a participação do governo da Rússia nunca foi provada.

No caso dos crimes comuns, a Rússia não tem acordo de extradição com os Estados Unidos, dificultando que a maioria dos ataques no exterior seja punida. Em geral, hackers só acabam presos se deixam o país em viagens ao exterior. Foi o que aconteceu com o estoniano Sergei Tsurikov, outro dos envolvidos no roubo da RBS, preso em Nova York. A prisão de Viktor Pleshchuk, em abril, todavia, envolveu uma rara colaboração entre os dois países. Ele se encontra preso em Moscou, suspeito de trabalhar para uma máfia.

Redação Terra

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